Peças videográficas curtas sobre os sons domésticos mínimos que quase nunca temos a chance de perceber. Esses vídeos retratam uma espécie de monólogo de alguns objetos domésticos explorando seus sons mais insignificantes por meio da manipulação ordinária, no intuito de narrar questões sobre o esvaziamento do sujeito e da comunicação durante o confinamento de 2020.
Texto
Cupertino Carvalho
"O galo está cantando, o carneiro está balindo, a vaca está mugindo, Ruisis está chorando e meu filho está deitado mudo, no seu pequeno caixão, no centro do belíssimo pátio de pedras perfeitas."
Hilda Hist - Ficções (Fluxos), 1977
Justamente agora enquanto todos (ou quase todos) permanecem estacionados, a terra não para de girar. O tempo não cessa de fluir, os boletos não param de chegar, o dolar não para de subir. Enquanto os pobres miseráveis sem chance continuam com fome e trabalhadores essenciais fazem hora extra, entra em evidência o movimento dos animais, das marés, dos dias e noites, do crescimento das plantas, dos cabelos brancos, do câncer e da vida. Melodia doméstica trata dos sons domésticos mínimos que quase nunca temos a chance de perceber devido a barulhenta e acelerada sociedade em que vivemos mas que, agora, silenciou um pouco. Por exemplo, muitas coisas incognocíveis para nós, estão, e sempre estiveram, em constante movimento. Ora, vejam só, todo esse movimento é superpovoado de sons, e agora, a variedade de alguns deles é acentuada. E é exatamente sobre esses sons mínimos, comumente obliterados, que o trabalho quer chamar atenção. Com a onipresença do inseparável celular, o artista lança mão de vídeos curtos, caseiros, tomados quase feito notas, que constituem uma espécie de "monólogo" dos objetos domésticos, cuja exploração de seus sons mínimos, por meio da manipulação pouco ortodoxa e quase lúdica - retrato da solidão tediosa - nos permite resistir, entre atos fúteis e jogos de monotonia, à temporada pandêmica. Essas frívolas atividades (será?), impostas pelo confinamento, vêm tomar lugar das atividades e interações pessoais matéricas as quais nenhuma rede social é capaz de substituir (será?).
Confinados em uma coordenada geográfica, mas onipresentes pela infra-estrutura das tecnologias atuais, as formas contemporâneas do viver estão constantemente regidas por um relacionamento dinâmico, que afeta, de momento em momento, os ritmos normais da vida, gerando mudanças profundas em nosso ambiente e sensibilizando a própria maneira de estar no mundo. Dia após dia nos aproximamos do "devir efetivo" de duas realidades habitáveis: a dimensão direta, tete-a-tete, e outra indireta, remota, telemática. O confinamento, serviu para acelerar esse contato indireto, criando um sentido de legitimação e uma suposta obrigação da presença on-line. "Posto, logo existo." A anologia cartesiana que era antes um sarcástico meme, acabou gerando muito dinheiro/fama para algumas pessoas e converteu-se em mandamento, em filosofia de vida e plano de carreira. A publicação da vida privada, tornou-se lugar comum e até uma necessidade viciante que ajudou a muitos ao longo da pandemia. Ajudou inúmeras pessoas a mergulhar em uma melancolia particular, conforme as notícias sobre o mundo eram mal compreendidas. Ajudou no aumento exponencial da receita daquelas prestadoras de serviços de Internet e sobretudo no aumento das ideias de interação continua (infinite scroll) das bilionárias companhias Silicon Valley, além de alavancar o surgimento de um amontoado de influencers e couchs vendendo cursos para uma "vida melhor" ou para um melhor engajamento de conteúdo nas redes sociais.
Essa multidão digital que não nos deixa mais dormir sem a companhia de uma tela, deixa-se transparecer sem pudores egoísmos, vaidades e infantilidades, e parece viver agora o paradoxo de Platão que, de volta à caverna escura vive apenas de aparência, tendo a tela como sua única iluminação, tratando o like como moeda, a selfiecomo identidade e o post como terapia. Todo esse cinismo funciona como um placebo para fugir da solidão, ou uma tentativa para sentir-se amado. Criar nexo ao universo particular, parece só fazer sentido se nossos "melhores momentos" estiverem instantaneamente compartilhados na "nuvem". Nesse metaverso se forjou nossa nova Ágora, onde a experiência de vida in situ e a experiência on-line se fundem e confundem-se, aplicativos são as novas cidades e quando se está no meio da multidão você é apenas mais um solitário passante, é como outra pessoa qualquer. Confinados nessa aglomeração digital, suspensos os encontros presenciais, vamos passeando dentro de casa, encontrando tempo, descobrindo sensibilidades e inventando frugalidades que publicamos ansiosamente para "existir" nessa engrenagem em resposta a esse novo tipo de socialização imposta. Assim na terra como na "nuvem". O like é o novo amém.
A partir dessa experiência nova, provocada por uma condição extraordinária de decantação rumorosa do fluxo cotidiano, é que surge, como um campo de pequenas percepções (José Gil, 2005), a suíte Melodia doméstica. Uma rotina silenciosa que torna possível o desmascaramento do quotidiano e da percepção mais aberta aos sons mais costumeiros e mais sutis. É um possível implicando um devir - a passagem de um ao outro tem lugar no inframince[1] (uma compilação de notas escritas pelo artista francês Marcel Duchamp para conceitualizar suas percepções mínimas). A noção de inframince, apesar de indicar uma dimensão mínima, infinitesimal, possui uma dimensão física e material, que não pode ser contida em uma existência puramente abstrata fruto de um pensamento estritamente racional. Nesse sentido, Duchamp apresenta o inframince como sendo uma descoberta (não uma invenção ou criação), são anotações apreendidas da observação de estados das coisas para proposições artísticas e reflexões estéticas a partir de um conjunto de sensações sutis (REINERT, 2019). Esta melodia doméstica, tão familiar e desimportante, requisita uma maneira despretenciosa de emitir esses sons quase imperceptíveis no fluxo diário, porém lúdicos e hipersensíveis. As pequenas cenas registradas, como um mise-en-scène da realidade, refletem o esvaziamento do sujeito e tentam depurar sentimentos profundos, durante o confinamento de 2020.
NOTAS-------------------------------------------------------
1.“Marcel Duchamp deixou-nos 46 notas que intitulou Infra-mince. Duchamp opera, em suas Notas, uma sutil dosagem entre aspectos lúdicos e hipersensíveis — ora sensitivos. [...] É sem dúvida seu caráter especulativo e irônico que lhe proporciona uma tonalidade ao mesmo tempo estética e com aspectos científicos. [...] Infra-mince seria o atributo ou adjetivo constituído por Marcel Duchamp para proposições estéticas, jogos semânticos, jogos com a linguagem, para o conjunto de sensações sutis que constituem suas 46 notas. Infra-mince seria, por exemplo, o momento último da passagem pelas roletas do metrô: nota n° 9 (recto) – ‘les gens/ qui passent au tout dernier moment Infra- mince’. [Seria também] o momento imponderável onde qualquer coisa que é selada, microscópica ou infinitesimal, acontece. Infra-mince [...] a sensação resultante da esfregação de um tecido de veludo pelas pernas: nota n° 9 (verso) - “Pantalons de velours - leur sifflotement (dans la) marche par / frottement des 2 jambes est une / séparation Infra-mince signalée / par le son (ce n’est pas? un son infra-mince)’. O jogo da tactilidade e da sensualidade aí se torna aparente com toda evidência.” FRANCA-HUCHET 1998, p. 20.